A outra face de Selton Mello: o diretor

Por Bianco Silva 

Parece que tudo que Selton Mello toca vira ouro. Essa antiga máxima não poderia ser mais verdadeira, ao analisarmos o conjunto de obras desse magnífico artista como ator. A presença de Selton Mello em uma produção é selo de garantia de qualidade equivalente à HBO, se me permitem a analogia.

Mas eis que ele nos surpreende em 2008 com Feliz Natal, seu primeiro filme como diretor. Na estreia como diretor Selton retrata deterioradas relações familiares durante essa depressiva época do ano. Em Feliz Natal tudo é muito real, não há aquele embelezamento, aquela plasticidade clichê que é vista nas novelas da Rede Globo de Televisão. Podemos contemplar verdadeiras relações e conflitos familiares, crus, difíceis, pesados.


Não se engane, Feliz Natal de feliz não possui nada. É um filme bastante melancólico, depressivo e diria até mesmo pessimista. Mas talvez resida justamente aí sua beleza, pois, particularmente, eu defino a vida real como um drama e não uma comédia, por isso esse gênero é um dos meus preferidos no cinema.

Entendam por drama filmes verossímeis e não verdadeiros dramalhões mexicanos. Verossímeis no sentido de que analisam o comportamento e as relações cotidianas (ou não) do ser humano. Fórmulas de comédias românticas, por exemplo, nem sempre acontecem na vida real. Dramas sim.

Feliz Natal acompanha a trajetória do protagonista Caio, que resolve visitar a família na festa de Natal. Caio possui um (quase inexistente) difícil relacionamento com o pai (Lúcio Mauro), atritos com o irmão Theo (Paulo Guarnieri) e uma conturbada relação com a mãe (Darlene Glória divina). Merece destaque também Graziela Moretto como Fabi, esposa de Theo.

Acompanhamos os desdobramentos dessa jornada de Caio nesse, que como dizem os críticos, é definitivamente o filme pessimista de Selton Mello. O longa é excelente e obrigatório, faz pensar e refletir.

Em outubro de 2011 Selton lançou seu segundo longa-metragem como diretor: O Palhaço. Aclamado pela crítica especializada, foi rotulado como o filme otimista do diretor e realmente o é. Nesse, ao contrário do primeiro, Selton atua e como o protagonista Benjamim. Sempre impliquei com filmes em que o diretor atua como protagonista mas em O Palhaço não senti que a atuação de Selton fosse mero maneirismo egocêntrico.

O Selton ator transpassa emoção apenas com uma expressão facial. Não há como se emocionar (muito) ou rir nessa película. A direção de arte está excelente na construção dos cenários e personagens peculiares que fazer parte do Circo Esperança. Tudo muito real, bem cuidado e pensado nos mínimos detalhes.



Ao mesmo tempo que o filme parece se passar em uma determinada época (anos 70, 80 ou ainda 90) diretor tenta não datar o filme, pois pude perceber que alguns eletrodomésticos, por exemplo, muito modernos e descontextualizados. Acredito que isso fora, é claro, intencional por parte da produção e direção do filme.

Em O Palhaço acompanhamos a trajetória de Benjamim, o palhaço Pangaré do Circo Esperança ao lado do pai Valdemar (Paulo José), o palhaço Puro Sangue. Benjamim é um palhaço triste, sem ter ninguém para fazê-lo rir. Ele começa a se questionar e querer descobrir o mundo fora do circo. Ele sai em busca de um ventilador, isso mesmo, de um ventilador.

É interessante acompanhar essa jornada de descobrimento pela qual o personagem passa, de artista “livre” a burocrata do sistema, Benjamim descobre o que é melhor para sua vida.

Emocionante e engraçado na medida certa, O Palhaço se mostra uma “dramédia” eficiente, com selo de qualidade Selton Mello, a HBO brasileira.

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